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Volume 4 / Outubro – Dezembro 2005

Revista SPR 2005

É fácil apontar falhas na formação, no caráter ou no comportamento dos outros. Difícil é enxergá-las em nós mesmos. Há pessoas que, até, as ignora. Não enxergar claramente o que acontece é uma definição para o chamado “ponto cego”, normalmente acompanhado de outro ponto, o surdo. Assim, o indivíduo, além de não ver, também não escuta algo que o comprometa ou que o coloque em contradição, ou, ainda, que o obrigue ao confronto consigo mesmo. Esse fenômeno é mundial: provocou um grave conflito no relacionamento de Jane Fonda com seu pai, Henry, e, tem sido observado com freqüência em nosso país, do Presidente da República, que nada vê e tudo desconhece, ao funcionário mais simples de seu gabinete, que também nada sabe. Em nosso cotidiano, é possível olhar sem ver, e ouvir sem escutar. É a completa vivência da alienação, na qual somos impedidos de perceber algo que, na realidade, pode não ter nada de perigoso, mas que em nossa subjetividade é tomado como difícil. A medicina e, sobretudo, a Reumatologia são, a priori, uma “clínica do olhar”, mas também uma “clínica da escuta”. Há poucos anos, tive uma paciente que comparecia mensalmente à consulta, apenas para falar. Dizia sempre: “Doutor, não faça nada, não se mexa, não me olhe, não precisa pedir exames ou me dar medicação. Na verdade, passo mal com todos, tudo me dá alergia e nada melhora as minhas dores.” Mas não desistia. Tive outra que falava: “Doutor, só vim buscar a receita daquela formulinha de dormir.